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Webcomic: Entrevista com Digo Freitas, a mente por trás do Esboçais

 

A internet é, sem sombra de dúvidas, o melhor meio de divulgação e difusão dos quadrinhos nacionais na atualidade. Bem mais do que a mídia impressa, cuja primazia no interesse da maioria dos leitores ainda pertence aos super-heróis e mangás. Graças à internet – e mais especificamente às redes sociais, como o Facebook – muitos quadrinistas nacionais foram revelados e caíram nas graças do público. Entre eles, estão nomes como Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer), Sólon Maia (Meus Nervos!), Fábio “Coala” Cavalcanti (Mentirinhas) e Rodrigo Freitas, mais conhecido como Digo.

Desde 2010, Digo mantém o site Esboçais, onde publicou, até outubro de 2013, tiras humorísticas com alguns personagens fixos – o Pedreiro com suas cantadas esdrúxulas, além da dupla de paquidermes Mamu e Le Fan – e sátiras variadas à situações do cotidiano. Em 2014, Digo resolveu interromper a produção no Esboçais e criou um novo site, DigoFreitas.com, onde desenvolve HQs com teor mais aventuresco e pessoal, no esquema de uma página por semana.

Conheça mais sobre a trajetória e o trabalho dele na entrevista abaixo:

1. Como surgiu a ideia do Esboçais? Você já fazia quadrinhos antes de criar o site?

 

Um amigo meu gostava das tiras que eu fazia no caderno durante as aulas e me mostrou que tinha todas salvas no seu PC, porque eu colocava na época tudo no meu Orkut, isso lá em 2010. Eram as do Guizo, que ainda estão no site. Para hospedá-las eu criei um Blogger e comecei a postar todas que fazia lá… Pro nome eu acho que demorei um dia pensando até achar algo que tivesse a ver com desenhos mal feitos, porque a ideia inicial era postar somente tiras no caderno a lápis e tal. Esboçais entrou assim, como uma brincadeira com “esboço” e também com “ex-boçais”. O problema maior é a cedilha, ninguém nunca entendia quando eu falava o nome do site, acho que perdi vários acesso por causa desse nome maldito hahaha…

Um mês depois um outro amigo me ofereceu hospedagem por um preço bom e eu coloquei o site no “.com.br“, onde o site cresceu e se tornou mais maduro. Com o passar do tempo, personagens foram surgindo e saindo, mudei bastante o layout, a abordagem das piadas, roteiros, etc. Até que em 2013 eu decidi que iria parar de fazer tiras para focar em quadrinhos maiores e mais importantes, por isso o site está congelado desde Setembro sem novidades.

Eu não produzia nada antes disso, apenas rabiscos aleatórios, desenhava “pouco”, nunca tinha feito cursos. Sempre diziam que eu tinha talento, mas eu era mais viciado em computador do que desenhar, porém nunca parei de verdade. A coisa foi invertendo por causa do site. Eu precisava desenhar toda semana e cada vez eu exigia mais de mim mesmo. No auge eu cheguei a ter 128 mil visualizações em um mês. Sempre quis fazer um curso de desenho, então paguei do bolso, visto que eu já estava trabalhando. Foi aí que a minha saga nos quadrinhos começou de verdade, ou pelo menos ficou mais “hardcore”.

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2. Você tem alguma formação acadêmica relativa à Artes/Desenhos? Acha tal formação essencial para um contador de histórias?

Pra ser sincero, minha formação formal toda é na área de Tecnologia da Informação. Na área de artes eu tenho um curso de Ilustração, que fiz aqui em Campinas com o meu grande mestre Mario Cau na escola Pandora, e agora estou fazendo outro curso mais avançado voltado para o mercado de ilustração, que se chama Ilustração de Mercado. Vale a pena para dar uma melhorada na arte, mas sem esforço e dedicação, não tem jeito. Não existe milagre.
Pra quem quer ser um contador de histórias, tem que estudar sim, e muito: roteiro, diagramação, layout, criação de personagens, cenário, diálogos, etc; tudo que envolve uma história em quadrinhos. Eu acabei aprendendo muita coisa na raça ou correndo atrás sozinho, mas existem excelentes cursos onde você pode aprender essas coisas com um professor. Mas acima de tudo tem que ler de tudo, absorver o máximo e gostar do faz.

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Mamu & Le Fan, tirinha sobre um Mamute ingênuo e um elefante sacana!

 

3. Quais são suas maiores influências enquanto contador de histórias? Pode mencionar quadrinhos, filmes, pessoas, etc, o que quiser!

Bom, teve uma época que eu era fanático por Scott Pilgrim, outra por Full Metal Alchemist, já foi Turma da Mônica mais na infância, mas tem uma paixão que eu nunca me afastei: a arte do criador de Dragon Ball, sensei Akira Toriyama.
Dele eu recomendo tudo, não existe quadrinho ruim do Toriyama-sensei. Alguns ninguém conhece direito por aqui, como SandLand ou Kajika, mas foram lançados pela Conrad e dá para achar por aí. Eu compro tudo que posso dele, e nunca paro de aprender.
Aliás falando em aprender, ele tem um livro-mangá que se chama “Mangaka”, sobre criação de mangás, mas tem dicas ótimas para qualquer quadrinista.
Filme preferido é De Volta para o Futuro, toda a trilogia. Meus filmes da vida. Não tem muita a ver com o que eu faço, mas sempre tá na memória.

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Obviamente, este é o Pedreiro!

 

4. Falando um pouco dos seus quadrinhos no Esboçais, como surgiu o Pedreiro? Era o personagem mais popular? Afinal, de todos os seus personagens ele é o único que possui um livro impresso!

O Pedreiro surgiu por acaso. Sempre conto essa história, aí é bom que eu não esqueço, já que tenho uma memória péssima. Eu fiz uma tira com uma cantada daquele perfil do Twitter “@PedreiroOnline”, que na verdade era controlado por duas garotas, como fiquei sabendo depois. Como no texto do post dessa tira eu citava o perfil, acabou aparecendo quando meu sogro (pai da namorada) divulgou, aí eles viram, também compartilharam a tira e eu entrei em contato para ver se a gente poderia fazer uma parceria, já que eles tinham um público legal e eu queria poder ter eles como meus visitantes.
Rolou uma conversa, elas falaram como seria o personagem, mas a minha pegada era diferente e tal, acabou saindo um “Johnny Bravo brasileiro”.
Só que a parceria não durou muito, logo elas começaram a reclamar de algumas coisas, depois não davam retorno… Aí eu toquei o f*-se e continuei o personagem sozinho.
Ele é bem popular, mais do que eu imagino, porque sempre que eu vou vender o livro em algum lugar as pessoas me dizem que já viram em minhas tiras no Facebook ou outros sites, tipo o Testosterona. A gente acaba perdendo o controle, então só quando falam que a gente descobre essas coisas.
A história do livro é curiosa. Eu queria na verdade fazer um do Mamu & Le Fan para o FIQ 2013, mas eu sabia que não ia vender para quem não conhecesse os personagens, então apostei no mais genérico, que todo mundo entende o que é “cantada de pedreiro”, e deu certo, foi um sucesso de vendas. As pessoas nem sabem quem sou eu, mas acham maneiro o meu trabalho e compram o livro ou para si ou para dar de presente, e é bem legal ver as pessoas rindo assim, ao vivo.

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Algumas das primeiras tiras do Pedreiro

 

5. Por falar nisso, acha natural toda webcomic “migrar” para a mídia impressa em dado momento? Ou pensa que certas HQs funcionam melhor estando no meio digital?

Natural é, não tem nada de errado nisso, mas não é obrigatório. Depende muito do que você quer com seu trabalho. Atualmente eu só faço trabalhos para publicar impresso depois, assim tenho um trabalho só, e não dois. A webcomic cria o público para você e é um teste de aprovação também. Tem gente que nem aprova esse paradigma de quadrinhos online de graça, mas mesmo assim publica na web para testar a receptividade da obra.

O livro geralmente vem para ajudar a custear o site, dar um dinheiro para o autor e para divulgar para outros públicos o seu trabalho. É bem vantajoso, mas tem que ter cuidado. Não é fácil colocar numa livraria e às vezes nem vale a pena, aí tem que vender de um em um, ou em convenções como o FIQ e o Gibicon, que tem um público legal para HQ independente. Por isso que nessa área é essencial ter muitos amigos.
Existem quadrinhos, por exemplo, que só existem no digital e migrar seria uma crueldade. O Diário de Virgínia, feito pela minha amiga Cátia Ana, é um baita exemplo disso, recomendo a todos que leiam a partir do primeiro capítulo.

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6. Existe algum tipo de união entre os membros da “cena webcomic” no Brasil?

Existem vários coletivos oficiais e não oficiais. Em 2010 a gente tinha um grupo de email do Yahoo que chamava Webcomics Brasil, chegamos a fazer encontros pessoais e diversas parcerias e eventos online, inclusive um que o Maurício de Sousa viu, foi muito legal. Eu recriei este grupo no Facebook, chamei alguns outros amigos e atualmente ele tem quase 400 membros, todos autores publicando diariamente. Tenho muito orgulho de ter disponibilizado este espaço e ele estar dando certo.
Hoje eu faço parte de um coletivo chamado Café com HQ, com foco em podcast, mas também fazemos outros tipos de matérias sobre webcomics. Este ano pretendemos começar a publicar mais em nosso site, então baixem os podcasts, escutem e acompanhem o site!
Agora tem outros grupos também, como o WC², que eu faço parte, mas infelizmente vai acabar, o Petisco, que publica entre outros o Terapia, ganhador do HQMix 2013, tem o Quadrinhópole, a galera do Quadrinhos Rasos/Pandemônio que cresceu bastante… Enfim, muita gente.

 

7. A respeito de sua nova fase: o que te levou a interromper o Esboçais e começar o DigoFreitas.Com?

Foi o desconforto em diversas coisas, mas principalmente a falta de tempo para manter as duas ideias. Eu já estava numa fase onde fazer a tira não era mais tão divertido e queria drogas mais pesadas  tipo quadrinhos longos (rs). Uma decisão muito difícil, mas necessária. O Tinta Fresca, por exemplo, tava na minha cabeça havia quase 2 anos antes de entrar a primeira página, dia 31/12/2013. Para você ver como foi duro abandonar um trabalho tão duradouro e tão bons frutos, como foi o Esboçais, ainda mais que eu tinha acabado de lançar o primeiro livro do Pedreiro e pretendia lançar outros, mas parece que ele vai ficar só no volume 1 mesmo.

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Primeira página de Tinta Fresca

 

8. Poderia nos falar mais sobre as suas novas webcomics? Pretende imprimi-las algum dia?

Eu não posso espalhar muito meus planos, mas o que posso dizer é que cada capítulo do Tinta Fresca terá 23 páginas e um dia esses capítulos serão impressos.
Essa webcomic é sobre um garoto que após ser preso por estar grafitando ilegalmente é salvo por um professor de desenho que finge ser seu advogado. O resto é spoiler até o fim do capítulo, em junho ou julho.
A DISCO eu estou apenas colorindo, já que foi uma HQ que fiz para vender no FIQ, então entra uma página colorida dessa por mês até o fim do ano.
O Diário de Ideias Gráficas (pouco) Originais (vulgo D.I.G.O.) está parado até eu estabilizar o fluxo de páginas do Tinta Fresca. Até lá, não é prioridade, já que é uma série de humor quase sem roteiro definido.

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Primeira página de Disco, HQ de ficção científica que vem sendo publicada no novo site

 

9. O humor, de uma forma geral, é o gênero mais popular dos produtos de entretenimento no Brasil. Os filmes e peças de teatro brasileiras mais populares são as comédias. E nas redes sociais, os webcomics de comédia são, disparado, os mais compartilhados. Ao dar esse passo com suas novas HQs, tem algum receio de perder a popularidade conquistada com o Esboçais?

Sim, com certeza eu perdi a grande maioria do meu público. Mas o meu nome não foi esquecido, ainda tenho centenas de amigos na internet que eu sei que apoiam meus quadrinhos e eu sei que muita gente que acompanhava o Esboçais hoje acompanha este novo também, o pessoal sempre vem elogiar e comentar, isso é muito bom. A piada fácil, o riso rápido, as coisas voláteis, tudo bomba mais fácil na internet do que um site que você entra e vai lendo página a página. No Esboçais eu tinha esse público mais desligado, agora nesse novo eu acabei filtrando muito, porque nem todo mundo gosta desse tipo de história, sobre um moleque e suas aventuras…
Enfim, quando eu desisti do Esboçais eu já tinha tudo isso em mente, então não é nada chocante ver os acessos em menores que antes, mas sobre o que eu disse lá atrás, pra mim vale, e muito: goste do que faz. E eu amo isso aqui!

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10. Muito obrigado pela entrevista. Se quiser acrescentar algo além do que você respondeu, pode falar!

Bom, primeiramente obrigado pelo convite, eu gosto muito de dar entrevistas, conversas sobre quadrinhos e coisas aleatórias, por isso fico feliz em estar aqui. Convido a todos que gostaram do jeito que falo (ou escrevo…?) a visitar o nosso site do Café com HQ (http://cafecomhq.com), onde temos um podcast e discutimos muita coisa sobre webcomics e quadrinhos e besteira também.
Claro, acessem o Quadrinhos do Digo (http://digofreitas.com/hq/), leiam Tinta Fresca e comentem lá o que acharam.
Aos que gostam de piadinhas, o Esboçais está hibernando, mas ainda está entre nós, podem acessar lá: http://esbocais.com.br
Se gostarem, comprem meus livros aqui, é baratinho: http://digofreitas.com/blog/loja/
Trabalho também como ilustrador, se precisarem de um desenho, é só colocar um holofote de morcego no ar que eu apareço, ou então entrem em contato em uma das formas a seguir.
Curtam minha fanpage no Facebook: http://fb.com/DigoFreitasHQ, sigam-me no Twitter: http://twitter.com/DigoFreitasHQ
Isso aí. Valeu, Bruno, até a próxima.
Abração!

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